sábado, 19 de dezembro de 2009

Necrose

O tempo não perdoa a carne doída
Ruínas de vida exibem a pele corroída
Não podem descansar os olhos caídos
Em desespero, condenados a vagar, os pés feridos
Não canta mais a língua em necrose
Nem conta mais a mente em neurose
Um, dois, três anos se passam
Até que séculos se desfaçam
A dor é tudo o que perpetuará
Teu sofrimento, homem, é tudo o que restará
Não adianta rezar,
Pois não há mais olhos que vejam teu pesar
Nem ouvidos que ouçam tuas preces
Caso não saibas, és tão sozinho quanto pareces
Tu és a última ruína que restou
Da maravilha, que, um dia, aqui, ele concretizou
Tão frágil, foi como ele te gerou
Tão vulnerável a querer escolher entre o bem e o mal
Entre tantas criaturas, uma serpente, amigo leal
Pôdes sim escolher e escolheu
Viveu, sofreu, morreu e apodreceu
Foi te dado, seja testemunha a dor,
O poder de propagar teu horror
E assim o fez, espalhaste tua maldição
Feito doença, geração a geração
Até um novo dia, nova chance de escolher
Um sacrifício, em seu altar, deves oferecer
Um, agricultor
Outro, pastor
E assim, cada um pagou por uma graça
E assim cada um guiou sua raça
Pastor, levaste teu melhor novilho ao altar
Lavrador, levaste teu modesto trigo a ofertar
Sangue, vida, oferta abençoada
Trigo inerte, queima renegada
Mente injuriada, raivosa mão
Matou e ofereceu em sacrifício o irmão
Vida e sangue és o que desejas
Eis aqui teu amado filho dar-te o que almejas
Um sinal em sua testa foi marcado
Bane-te dali, servo amaldiçoado
Rejeitam-te os lares que te rodeiam
Negam-te os homens que te odeiam
No seio da cadela, vai-te acolher
Até, novamente, teres a chance de escolher
Bem ou mal
Contrição ou seu lábio mortal
Treze anjos à Terra foram descer
Arrepende-te, é o que viemos saber
Treze vezes, por ela, você negou
Treze vezes, por ela, sua carne, amaldiçoou
De agora em diante é o que terás
Quis as trevas e nela, viverás
Da luz da vida e do dia, fugirás
Se quiseres viver, o sangue de teus irmãos, beberás
E assim se cumpriu
A praga aos seus descendentes, transmitiu
Ganhou como prêmio, a eternidade
Eterno a contemplar a própria mediocridade
Você e os seus morrerão
Em nada, suas carcaças, virarão
Eterno feito a embriaguez do juízo
Eterno feito a ilusão do paraíso
Eterna a humana neurose
Fugir do que somos: do mundo, a necrose

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