sábado, 19 de dezembro de 2009

Noite dos Mundos

Confinada ao fundo,
Aguardando com ânsia o desmundo,
Criatura vê do frígido recanto,
Face do destino, vê com espanto
Da mão divina, a sorte que se lança
Da sua linhagem a destinada matança
Cria maldita implora,
Absolvição, olho malévolo que chora
Em neurose ora,
Direito, não sabe para quem
Mas acredita em uma salvação no além
Acredita em renascida vida,
Vê as flores dos jardins da terra prometida
Mas sabe que lá não será seu lugar
Pois junto com sua família há de purgar
Dada será a batalha no céu
Espada ergue-se na mão de Miguel
Nuvens coram-se de sangue
O exército do herege prossegue,
Encanto e blasfêmia sobre a Terra, vocifera
Corpos de anjos, lâmina maligna dilacera
Terra é escravizada pelo reino pagão
Sobre os jardins e as águas do Senhor, desce o dragão
Dez são seus chifres, sete são suas cabeças,
Dez são suas diademas, um é o nome da blasfêmia
Sentado, aguarda o dragão
Para que devore, da mulher o varão
Mas antes que o pai de toda a desgraça,
Tome do mundo, fiapo de esperança e o desfaça
Dado é, à mulher, duas grandes asas
Dado é, no sagrado deserto, seguras casas
Grande Mãe refugia-se da serpente
Terrível besta, deságua, de sua boca, letal corrente
Mas suas águas são engolidas pela terra
Que as ameaças da criatura enterra,
Irada, declara a besta guerra à divina semente
Morte aos anjos de Deus e a todo o seu temente
E aos seus sacramentos,
Esquece, o povo, dos divinos mandamentos
É visto chegar ao mundo, da fúria,
Outra, como a primeira, horrenda criatura
Mas essa, semelhante a um leopardo
Dado é ao mundo mais enorme fardo
Emerge do mar sua mãe ferida à espada
Ferida pela lâmina de Miguel entalhada
Maravilha-se o mundo diante à ferida da morte curada
Indagam como pode a besta ser derrotada
À sua cria, grande boca é dada
Para que profira grandes blasfêmias,
E ao nome de Deus vocifere infâmias,
Blasfêmia contra os que habitam no céu e seu tabernáculo
Entalhado é o maldito pentáculo,
Sobre as cabeças dos que agora lhes são crentes
Dado é o poder que converte as tribos em obedientes
E adoraram todos a besta, da primeira, nascida
Adoram-na aqueles cujos nomes são apagados do livro da vida
Eis que se vê o último feito traiçoeiro
Emerge da terra outra besta com chifres de cordeiro
E faz estremecer do planeta o seu chão
Com o poder da primeira besta e a fala do dragão
Iguala todos a um rebanho de condenados
Com seu nome ou número marcados
Para que ninguém possa comprar ou vender
Fora das rédeas do maldito sobreviver
Se alguém tem ouvidos, ouça
Se alguém ainda tem fé, que se torça
Se alguém leva em cativeiro, em cativeiro irá
Se alguém matar à espada, à espada morrerá
Aqui está a paciência e a fé dos santos
Aqui está seu povo escravo em prantos
Aqui há histeria,
Aqui, tenta sobreviver a sabedoria
"Aquele que tem entendimento,
Calcule o número da besta;
Porque é o número de um homem
E seu número, é seiscentos e sessenta e seis" (Apocalipse 13: 18)
Seiscentos é sessenta e seis é a terça parte
De estrelas lançadas à Terra, luz que se reparte
Seiscentos e sessenta e seis é a prostituição
Do mundo, dos seus reis, da traidora nação
Seiscentos e sessenta e seis é a noite dos mundos
São as vidas, que agora, jazem nos infernos profundos
Seiscentos e sessenta e seis, fé e sanidade que somem
Seiscentos e sessenta e seis, esse é o número do homem!
O Lago de Narciso

Quando a luz se apagou,
Dentro de mim não pude mais ver,
Seus olhos, você me emprestou
Muito profundo fui capaz de descer
Para recolher a estrela que estilhaçou
Ao seu jogo, resolvi me render
Na esperança vã que dominava,
De resgatar minha imagem que se dissipava

Olhos, ao escuro, cegados,
Há muito vazados pela tristeza,
Estavam por demais machucados,
Para sentir o reflexo da beleza,
Ou umedecerem aos traços marcados,
Entalhados pelo tempo e pela mãe natureza
Eis que surgem seus olhos quando não mais via
Eis que surge seu coração quando não mais sentia

Corpo e espírito desnudavam-se
Meu segredo mais profundo revelei
Minhas faces perante você, desvendavam-se
Meu recanto mais obscuro, mostrei
Sentimentos e pensamentos entregavam-se
E a última gota de fé que te confiei
Doei minha alma a você, outrora
Mas preferiu minha carne e jogou minha alma fora

Uma cicatriz é o que me resta agora
Bendita e cumprida foi a missão
Pássaro livre, voa, vai embora
Pois a todo o início, há uma terminação
Estranho é como o ser humano namora
Estranha é, do sentimento, a anulação
E a ânsia em corroer o que é indissolúvel
O amor em sua verdade nunca será volúvel

Curiosa é a facilidade,
Com que se anula uma jura
Atrofia o sorriso diante à dificuldade
Permanece apenas em uma figura,
O que um dia foi vida e felicidade
Até que nos separe a miséria e a loucura,
Ou nosso mútuo egoísmo,
Continuemos nos ofendendo com nosso cinismo

Muito queria amar
E um dia, pensei ter conseguido
Mal podia eu imaginar
Que meu próprio ser me era tão querido
Depois que passei a me enxergar
Por seus olhos, meu semblante foi percebido
Eu e você, enganei
Quando, através de você, eu me amei

Era para mim, cada elogio
Uma ferida que cicatrizava
Definia-se, meu reflexo, antes, vazio
A carne, antes feia, agora se transformava
Nem via eu o interesse frio,
Que havia por trás de quem me confortava
Pois nada mais estava enxergando
Intensamente, loucamente, estava me amando

Prostitui-me em troca de no outro encontrar
O que não conseguia encontrar dentro de mim
Até em você, eu cair e me afogar
E a nojenta mentira ter seu merecido fim
No mundo humano, toda a graça se deve pagar
E paguei com a honra que havia em mim
Mas muito a você, confesso, devo agradecer
Pois na sujeira em que me afundou, fêz-me renascer

Então, meus olhos se abriram
E por eles, refletiam novas cores
Não vêem mais como antes viam
Aprenderam a contemplar, da vida, as flores
Não mais da verdade, fugiam
Pois aprendeu, a mente, a apreciar os sabores
Que oferece a vida e perceber,
Que beleza é questão de sentir, não apenas de ver

Quanto ao meu erro, agradeci,
Por mais uma lição aprendida
Com minha vergonha, cresci
Saiu da cegueira, a mente arrependida
Então, finamente entendi
Que a verdadeira beleza precisa ser compreendida
E para isso, basta apenas um pouco de sensibilidade,
Crescer e despir-se da humana vaidade

E da coletiva insanidade
De querer deformar em um padrão
O que é puro e belo de verdade
Para ver beleza, não há uma condição
Além da riqueza de espírito que chamamos humildade
E de ter, pela vida, alguma paixão
O belo está oculto, transfigurado na simplicidade
Que dá à beleza seu valor e sua raridade

A beleza começa feito puberdade
É uma descoberta pessoal
Revelada em uma viagem à intimidade
Para conhecê-la, é fundamental,
Que conheça a si próprio de verdade
Conheça e compreenda seu universo mental
Pois só assim sua beleza será definida
E não apenas uma idéia alheia incutida

É como admirar uma obra de arte
Há obras feitas para cada tipo de admirador
Vem até você, penetra e da sua alma, parte
Tem diferentes faces para cada observador
E por mais que negue o ser humano covarde
O homem é, da beleza, um eterno adorador
Pode não saber, mas no fundo, admira
A beleza que para ele nasceu e suspira

Um pássaro que, da janela, voa
Um casal em suas carícias e sua saudade
O choro de um recém-nascido, a vida ecoa
A criança, o presente e sua felicidade
Uma boca apaixonada, que doce palavra entoa
O brasileiro de coração que pratica a solidariedade
O mundo está pronto a servi-lo em sua grandeza
Fique à vontade e encontre sua beleza
Cicatriz

Na carne crava o espinho
Da dor que atravessa os ossos, definho
O pranto dá boas vindas ao meu castigo
Aos pés da vida, com lágrimas, mendigo
Não se teme na decadência arder
Quando nada, mais nada, tem-se a perder
As flores do jardim encontram-se ressecadas
Seu perfume evanesceu, suas cores são desbotadas
A rosa branca está morrendo de tanta tristeza
De seus botões, esvaem suas pétalas e sua beleza
Não adiantou na escuridão me refugiar
Pois a desgraça dentro de minha casa me foi buscar
Sem forças caí, em angústia me rendi
No chão, em desespero pedi
Mas minha súplica ofegante não foi ouvida
Do meu choro, do meu soluço, não teve pena a vida
Duas vezes caí
Duas vezes pedi
Duas vezes chorei
Duas vezes sangrei
De seu vôo gracioso caiu o beija-flor
Seu corpo pálido padecendo de dó e dor
As raízes e o verde, perdeu o gramado
O solo agora, é seco, estéril e arrasado
E eu que vivia a versar em meus campos coloridos
Ando agora no deserto, em seus rumos áridos e feridos
Sei que não mais adianta gritar, por isso ando calada
Às vezes penso ver cores, mas é apenas paisagem desolada
O sol, do alvo céu, sorri seu sorriso incandescente
E eu também extraio um sorriso da minha face doente
Não sei como, por quê, nem até quando
Mas sei que preciso continuar andando
A lua vela o sono da sua filha, em seu esplendor
Seus olhos a iluminam enquanto ela dorme nas trevas e na dor
Desde a minha origem, vivo como se já tivesse vivido
Minha vida não passa de um filme mudo e repetido
Por isso, não sei se temo o infortúnio ou o glorifico
Às vezes, até alegre com sua presença, eu fico
Muito pelo inferno vaguei
Muito à beira da loucura, sozinha, fiquei
Muito perdi
Muito adoeci
Muito chorei
Muito sangrei
E mesmo assim, muito à vida agradeço
Dela não guardo rancores, com ela não me aborreço
Pois antes de me presentear com sua cilada
Em muito ela já me fez realizada
Antes de me fazer chorar
Antes de me fazer sangrar
Muito ela me ensinou
Muito devo a ela o que sou
Muito, por campos cheirosos e floridos, andei
Muito, seus aromas e sua beleza, cantei
Tempo que, hoje, lembro-me com saudade
Relíquia que a vida me deu, que carregarei até a eternidade
Graças à ela, por um momento fui feliz
Dela, carrego sua marca, minha doce cicatriz
Melancolias e Alguns Versos

Escapando um soluço,
Em meio à noite me engasgo
Grunhindo o fuço,
Em seu nojo me rasgo

Cortam minha pele,
As correntes do meu pesadelo
A lâmina do inimigo me fere
As mãos odiosas arrancam meu cabelo

Sinto os dentes de cada condenado
Cravar-me a carne e espalhar-me o sangue
Oro enquanto vejo meu corpo retalhado
Restos da alma maldita, o inferno lambe

Goza cada amaldiçoado,
O gosto de ter Estrela por companheira
Goza meu corpo, de meus ossos, separado
Goza a luxúria, a penúria da vida inteira

Gozem nas jaulas os animais
Nas celas, criminosos e psicopatas
E na inocência, os pacatos débil-mentais
O mundo é seu, sociopatas!

Bem-vindas e benditas, minhas crianças!
Explodam esse mundo, destruam o que quiser
Pois o ser humano não estranha matanças
Nesse mundo que Deus deixou e nem o diabo quer

O paraíso dos hereges, dos insanos, o trono
Não foi assim que planejou o Criador
Mas o homem escolheu libertar-se do seu dono
Para seguir os passos da liberdade, dada foi a dor

Desse purgatório,
Menor dos males é a morte
Alívio quando chega o corpo ao crematório
Livre da cama, do bisturi e seu corte

Feliz é quem de longe nos zomba
Livre de uma carne, de uma vida, de uma mentira
Feliz torna-se o infeliz que no chão tomba
E manda à merda esse mundo e sua ira

Não sei se é feliz ou infeliz,
Estrela na sua pacata ignorância
Sua piedade ao homem, revela, diz
É a criação humana, de total insignificância

No mundo dos homens, amor é utopia
Sonhos armazenados a um outro plano
A paz, por aqui, é uma bela fantasia
Nada mais que desordem nasce no solo do profano

E nada mais nasce na mente,
De quem quer ter o direito de sonhar
No mais puro coração, a fé está ausente
Pois aqui, a recompensa por ser bom é definhar

Suga, o vampiro, o sangue e o suor
De quem, por aqui, atreve-se a ser honesto
Ou ter vontade de viver em um lugar melhor
A sentença do exílio é, do caos, o manifesto

Um tempo difícil, na Terra, haveria
De si mesmos, os homens seriam amantes
Dizia a profecia,
Adoradores dos prazeres, blasfemos e arrogantes
Perderiam, dentro de si, a magia
Pois aos braços do inimigo se veriam confiantes
A palavra não é a da salvação,
Mas do fim dos dias, da nossa destruição

Muitos serão os seduzidos pelos cantos,
Dele e de seus anjos banidos
Revelada será a paciência e a fé dos santos,
Para com os povos oprimidos
Cobertos serão pelo fogo e seus mantos
Esmagados serão os corações dos possuídos
Conhecida é a divina punição
Mas afinal, de quem ouvimos falar em perdão?

Se levar em cativeiro, em cativeiro irá
Se matar à espada, à espada morrerá
Mas se matar com um tiro,
À medida em que se tira, de alguém, o suspiro

Deixa-se, no mundo, o seu grito
Estupra-o com sua presença
Percebe-se que o problema pessoal é um mito
Fere a cara de pau da sociedade e sua indiferença

Era, o bom samaritano, uma parábola,
Pois o homem moderno é uma reta constante
E no seu mundo, não há fábula
Que o livre da sua existência sufocante

Até que vague a alma por outra dimensão
Livre da carne, encontre seu consolo,
Livre da chaga, descanse na escuridão,
Não mais é vislumbrado o ouro do tolo

Quando se é entrelaçado com a morte
Despido se é de todo o mal
Não o aflige a ceifa e seu corte
Pois toda a vida que parte é igual
Torna-se, o espírito livre, forte
Inútil é o temor, pois a alma é imortal
Cada alma, uma estrela no cosmos que irradia
Uma gaiola aberta, é uma pele já fria

Não ouse chorar em um velório
Chore, ria, grite perante a vida
O mistério da existência é intenso e simplório
Nem sempre há tempo para uma criatura arrependida

Ouça o coração quando ele chamar
Já que pode não haver outra chance,
Não perca tempo em deixar de saber o que é amar
Ou prender o sentimento, pai do romance

Não lamente os erros que já tenha cometido
Ao menos que, com eles, não tenha conseguido aprender
Sempre há perdão para o coração realmente arrependido
É apenas do homem, a paranóia de condenar e fazer sofrer

Assim como, dele, é a necessidade de sonhar,
Assim como, dele, é a necessidade de evoluir,
A sua ânsia em perseguir, buscar
E a força da sua natureza de transgredir

E a esperança que segue feito rio corrente,
Nasce, embeleza e renova em cada ser nascente
Canção do Meu Exílio

Minha terra não tem palmeiras,
Nem canta o maldito sabiá
As aves aqui não gorjeiam,
Pois ganem as vozes que tento calar
Minha terra não tem bosques,
È feita de uma só cor
Nela, transcorre um fio de vida
Estreito demais para abrigar o amor
As flores nascem fedorentas,
Do solo da minha terra morta
Mas nascem cheios de ira os espinhos
E minha carne em ódio se corta
Meus olhos arregalados vagam sozinhos
A procurar criaturas nojentas
Como eu, que venham a vagar,
Por meu vasto e vazio império,
Venham me espreitar
No meu cemitério,
O submundo da minha mente,
A claridade por aqui não passa
Pois em meu negro coração é ausente
E nada o fará bater, faça o que se faça
Pois em meu antro, a vida é uma especiaria
E um tesouro é a sanidade
Servida está, em todo o canto, a agonia
Os lagos são podres e salgados
Pois são feitos de lágrimas de saudade,
Sonhos, amores que morreram afogados
A infância, estrondoso relâmpago,
A inocência que ainda não conheci,
Passou rápido, mudo feito um afago
Quando tentei reencontrar foi quando morri...
Malvina

Soltos, os cabelos longos e cheirosos
Armados, os olhos fixos e tenebrosos
À janela me possui, atormenta, fascina
É ela, o diabo, belo corpo de mulher, é Malvina

Pele branca, lábios frios de morta
Face divina, corpo ardente
Poder diabólico, olho guloso, entorta
Seios alucinógenos, entranha quente

Venda-se desprezível alma masculina
Esqueça tudo o que já viu sobre uma mulher
Quando perder-se entre os braços de Malvina,
Repousar entre as pernas de Lúcifer

Não haverá mais, não existe figura feminina
Esqueça tudo o que sabe sobre prazer
Quando possuir-te os lábios de Malvina
Implore maldito! Ela quer te matar, quer te satisfazer

Nem a mais sórdida mente imagina,
Do que é capaz uma mulher sedenta
Um juízo, uma sujeira, uma paixão que tenta
A perdição, a gana, que emana de Malvina

Abrace-me doce menina
Acabe comigo maldita mulher e me sufoque
E me dispa e me excite e me descasque
Desperte o bicho que vive em mim, Malvina!

Comigo ela acaba, meu fogo ela apaga, com meu fôlego ela termina
Deixa-me doente, deixa-me quente, hipnotiza-me poderoso quadril
Deixa-me alucinado, deixa-me suado, deixa-me febril
Faça-me soluçar, tire o meu ar, faça-me ajoelhar, Malvina!

Mas peço a Deus que a minha mente não alucina
Peço a minha razão que proteja a minha família
Que não sofram a minha mulher e a minha filha
Deixe-as em paz, ainda que te mato, Malvina!

Na hora do prazer, a atração que abomina
Qualquer mulher é musa, é heroína
Mas uma só invade seu coração e lá reina e lá domina
Cuidado, sua volúpia é enganosa e não é eterna, Malvina...
A Mariposa

O destino é um caso sério
A vida, pura questão de mistério
Uma borboleta completa sua mudança
Mas ainda vive a pequena lagarta sem confiança
Tem asas, mas não consegue, livremente, voar
Não tem mais lágrimas, mas ainda consegue chorar
Não tem paradeiro
O juízo com ela, será traiçoeiro
Pequenina borboleta, ninfa doce
Quem dera se assim como vista, fosse
Uma pequena menina,
Cujo veneno, no peito, germina
Olhos moles, rosto inocente,
Por dentro, uma meretriz ardente
Se estiver com ela, jamais imaginará
O quanto ela é perversa, sórdida e má
Ares doce, essência rancorosa,
Sentada no jardim a mariposa venenosa,
Ela está farta de viver, quer sua salvação
Ela está farta de ser a face da corrupção
Ela ainda espera, lagarta veneno, tornar-se madura
Ela ainda espera redimir-se em uma alma pura,
Ela escolheu você menino, para ser seu mentor
Mas cuidado, menino, sua picada lhe trará a dor
Ela urra, ela chora, ela ri, ela diz que sente,
Pequena diaba, rouba, mata, engana, mente
Use-a, moleste-a, leve-a para cama,
Depois corra dela, pois ela nunca ama
Ela é uma venenosa mariposa
Fique longe dela, do Diabo, ela é esposa
Borboletas e ninfas, do néctar, alimentam-se
Mas ela, alimenta-se do sangue daqueles que, a ela, entregam-se
Corra menino, saia do caminho dela,
Dolorosa é a picada, a face não é nada bela
Como todas as flores do inferno, sempre graciosa,
Sempre contente, sorridente carinhosa
Mas não muito sua alegria durará
Seu coração, a lâmina afiada dela pegará
Salve-se menino e dê a ela a salvação
Ponha a cadela no seu lugar, a escuridão
Ela sugará seu sangue, comerá sua carne até definhar
Cuidado menino, o amor dela te quer matar
Possuído

Não espere o dia chegar
Pois não conseguirá mais ver
A luz do sol irradiar
Que fará seu olho arder

Não contemple a calmaria
Nem a chegada dos ventos
Não tem mais uma carne, desconhece a agonia
Seus, não são mais os pensamentos

Você está vivo mas não sabe,
Pois não tem sentimentos ações, nem memória
Em você mesmo não cabe mais sua alma
Pois alguém comprou a sua história

E nunca lembrará quando, onde,
Ou para quem vendeu
Não cabe mais a você, aonde,
Você vai, onde sua consciência se perdeu

É tarde demais para chorar,
Pois suas, não são mais as lágrimas
Tentará, em vão, gritar,
Mas aqueles que traiu, não ouvirão suas lástimas

Não soube conduzir a sua vida,
Por isso, entregou-a nas mãos de um mentor
Esperou que ele mostrasse a verdade não compreendida
De que o ser humano nasceu para a dor

Sofrer é a condição de viver
Mas você preferiu vender esse fardo
O único motivo pelo qual morrer
Deu sua única riqueza a um bastardo

Confiou nos amigos,
Que lhe chutaram o rabo
Vivendo felizes em seus jazigos
Rezam a Deus mas adoram o Diabo

Não têm alma, credo, rebanho condenado
Não têm um lado, a não ser, o que vence
E depois de traído, você se convence
De que a vida é honra demais a um fracassado

Dê sua vida a quem melhor pode aproveitar
Pois esperou Deus lhe fazer justiça, mas ele não veio
Agora, só resta, sua alma, entregar
Àquele sujeito medonho, feio

Pai dos desgraçados,
Mãe dos desprezados e desprezíveis
Da terra dos trovões calados
Ecoa o grito de suas crianças horríveis

Um mundo tão condenado,
Mas o único que o acolhe
De onde você sempre será negado
Nem seu cadáver miserável, a luz recolhe

Não há saída para o que está perdido
Nem há cura para quem é adoecido
Não há paciência para quem está caído
Por isso, deixei de ser esquecido e virei um possuído
Necrose

O tempo não perdoa a carne doída
Ruínas de vida exibem a pele corroída
Não podem descansar os olhos caídos
Em desespero, condenados a vagar, os pés feridos
Não canta mais a língua em necrose
Nem conta mais a mente em neurose
Um, dois, três anos se passam
Até que séculos se desfaçam
A dor é tudo o que perpetuará
Teu sofrimento, homem, é tudo o que restará
Não adianta rezar,
Pois não há mais olhos que vejam teu pesar
Nem ouvidos que ouçam tuas preces
Caso não saibas, és tão sozinho quanto pareces
Tu és a última ruína que restou
Da maravilha, que, um dia, aqui, ele concretizou
Tão frágil, foi como ele te gerou
Tão vulnerável a querer escolher entre o bem e o mal
Entre tantas criaturas, uma serpente, amigo leal
Pôdes sim escolher e escolheu
Viveu, sofreu, morreu e apodreceu
Foi te dado, seja testemunha a dor,
O poder de propagar teu horror
E assim o fez, espalhaste tua maldição
Feito doença, geração a geração
Até um novo dia, nova chance de escolher
Um sacrifício, em seu altar, deves oferecer
Um, agricultor
Outro, pastor
E assim, cada um pagou por uma graça
E assim cada um guiou sua raça
Pastor, levaste teu melhor novilho ao altar
Lavrador, levaste teu modesto trigo a ofertar
Sangue, vida, oferta abençoada
Trigo inerte, queima renegada
Mente injuriada, raivosa mão
Matou e ofereceu em sacrifício o irmão
Vida e sangue és o que desejas
Eis aqui teu amado filho dar-te o que almejas
Um sinal em sua testa foi marcado
Bane-te dali, servo amaldiçoado
Rejeitam-te os lares que te rodeiam
Negam-te os homens que te odeiam
No seio da cadela, vai-te acolher
Até, novamente, teres a chance de escolher
Bem ou mal
Contrição ou seu lábio mortal
Treze anjos à Terra foram descer
Arrepende-te, é o que viemos saber
Treze vezes, por ela, você negou
Treze vezes, por ela, sua carne, amaldiçoou
De agora em diante é o que terás
Quis as trevas e nela, viverás
Da luz da vida e do dia, fugirás
Se quiseres viver, o sangue de teus irmãos, beberás
E assim se cumpriu
A praga aos seus descendentes, transmitiu
Ganhou como prêmio, a eternidade
Eterno a contemplar a própria mediocridade
Você e os seus morrerão
Em nada, suas carcaças, virarão
Eterno feito a embriaguez do juízo
Eterno feito a ilusão do paraíso
Eterna a humana neurose
Fugir do que somos: do mundo, a necrose
Flores

De que adianta ter gente
que me joga flores
se nem ao menos posso ver as cores
além da escuridão latente?
De que me adiantam flores
se não sinto os odores
nada ouço além de vozes doces
que somem além da escuridão
e mãos que se fecham na minha solidão?
Não se cansam de cair as flores
queda inútil, à lama levará
assim como eu, o que cair apodrecerá
o fracasso exibe sua imagem e seus horrores
Malditas sejam as flores a perturbar-me a razão
assistindo à minha condição
adoçando com dó meus dissabores
Afundem todas as flores e não me venham com piedade
nem memória, nem saudade
nem feridas ou vãos amores
Deixem-me só as flores
só com migalhas de pensamentos
abortados sentimentos
queridas e inúteis dores
que na carne me fazem humana,
ferem a criatura desumana
Cresce da fúria do abandono,
junto ao olho e o escuro adorno,
meu ódio, minha força que ascenderá
não flores,
mas a vida que deu a elas as cores,
me vingará
Cantos de Miséria

Desespero-me a pintar flores
Enquanto contemplo minha miséria
Cubro de negro véu minhas dores
Ri a loucura sob minha face séria

Silêncio:
Almas estão sendo ceifadas
Para que outras,
Em fino vinho sangue,
Sejam perdoadas

Não mais tenho o que pensar
Não mais tenho o que temer
O que posso pagar,
Por estar cansada de tremer?

Onde estão os outros,
Para onde haveriam de ir?
Será que caíram mortos,
Ou se cansaram de aplaudir?

A dor alheia,
Das janelas do mausoléu,
É uma diversão verdadeira
Em ossos alheios esculpir troféu

Desfilam os colossos
Em palcos de vísceras
E ganem o ratos nos foços
E no inferno, almas míseras

Em baixo tom confesso
Derramando sangue,
Por falta de lágrimas, verso:

"Cantos de miséria
choram retalhos de memória
Miúdos calados de alma,
contam minha história"

Desejo eu o pecado da carne
E também a ressurreição
Entregaria-me ao escarne
Se fosse por um pouco de compaixão

Desejo estar morta,
Ao passo que choro meu cadáver
Lamenta minha pele torta
Nunca ter podido viver

Demônios à noite,
Vêm-me falar
Já que os vivos ao açoite,
Fazem-me calar

Deixo minha alma de presente
Para quem, dela, quiser abusar
Despeço-me solenemente
E continuo a versar:

"Cantos de miséria
choram retalhos de memória
Miúdos calados de alma,
contam minha história"

Fecho meus olhos,
Enquanto as trevas não me vêm levar
Abrem-se meus lábios velhos
Enquanto sentem a morte entrar

Cessam as estrelas no céu
E os cortes entalhados
Cala-se a música do mausoléu
E nos meus lábios, os sorrisos forçados

Não mais preciso fingir
Para viver uma mentira
Não mais preciso sorrir
E esconder do mundo minha ira

Qual é o prêmio que levaremos
Por viver uma vida que não vive
Por que nos calaremos
Diante à sina de sermos livres?

Para mim não faz diferença
Ignorar ou simplesmente calar
Em mim, morreu minha crença
Pois meu anjo não mais me vem cantar:

"Cantos de miséria
choram retalhos de memória
Miúdos calados de alma
contam minha história"

Assim como contam
Meus restos espalhados
Assim como montam
Meus pedaços deixados

Minha trilha,
Minha vida na escória
Minha ira,
Minha inútil glória
Fechada

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Entre a angústia que aperta
e a morte que é certa
Nada é a escuridão
para quem é filho da solidão

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
O que temer desse mistério,
confinada em um cemitério
Se apenas os mortos a ouvem chorar
e Deus não te ouve orar

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
De nada nos adianta odiar
quando já nos foram matar
Assim que inútil é gritar,
a saída é escondida chorar

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Espere que um dia hão de se compadecer
aqueles que tu deixas te bater
Espere que olhe a um oprimido
outros olhos refletindo caráter destruído

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Permita-me ceder meu lenço,
pois lágrimas, há muito, dispenso
Não faço da vergonha meu véu
nem da minha dor, alheio troféu

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Chora a inocência perdida,
chora sua alma vendida
Chora a dádiva jamais concebida
pois o amor na sua vida é chaga proibida

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Caia a lágrima que dignifica
derrame o sangue que purifica
Feche os olhos, entregue-se boa irmã
Regozije no inferno, princesa de Satã

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Mas antes de se afogar em sua sangria,
antes de apodrecer sua carne doentia
Peço que não tente por mim chorar
a beleza que a vida me foi roubar

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Até que um dia ouçam seu sussurro
nunca irá querer ver seu futuro
Antes seu rosto esconder
do que no inferno da consciência arder

Chora menina,
se ainda te restam lágrimas para chorar
Se ainda há algum dejeto a derramar
se ainda há sangue para jorrar
Há uma alma para trocar,
se ainda espera se salvar
Três Séculos Depois...

Se em vida me roubava os dias
Agora me desfaz os séculos
As horas são incansáveis e vazias
Desde que me fui descansar
Infeliz dia em que fui dormir
Gane meu desespero ao despertar
Nem ao menos pude vê-lo partir
E a vida que, comigo,
Jamais pôde compartilhar
Descanse em paz, meu amigo
Seu sono, aqui, hei de velar
Por mais que veja as flores se acabar
Meu pensamento sempre estará contigo
Cada minuto me tem sido o castigo
As estrelas me ouvem desabafar
Agora que o ciclo é concluído,
Por que não paro de chorar?
A última lágrima de sangue secou
Feito a última vez que suspirou
Meu corpo agora goza da serenidade
Um corpo sem alma perdido na eternidade
Por mais que eu o quisesse ao meu lado
Inútil é lutar contra o destino selado
Sabia que estava condenada a carregar
A triste sina que me tem sido te amar
E ter, agora, que tentar respirar
Parar de sufocar e te deixar descansar
Não posso impedir que se vá
Por mais que o ame,
Com você, meu destino não está
Acordei em um tempo que desconheço
Meu olhar ingerindo o que não compreendo
Poderia eu recordar, mas a que preço?
Os dias perdidos que não mais entendo
Saída de uma caixa de pedra,
Minha alma dá um longo suspiro
Vejo uma forma sair do nada
E perguntar-me o que miro
Sem nada falar,
Meu olhar da caixa desviei
Antes que viesse, novamente, perguntar
Que ano e dia eram, questionei
A fala do coveiro
Soou-me feito trovão
O tempo não foi tão traiçoeiro
Com quem passou três séculos em um caixão
Nada restou, nada ficou, nada durou
A não ser as cicatrizes da saudade
E uma pergunta que me perturbou:
Que diabo faço eu com a eternidade?

domingo, 6 de dezembro de 2009

sábado, 5 de dezembro de 2009

Desfarce

Tento desfarçar a minha dor
com uma face, não se encherga
só eu vejo o sentimento
que sufoca meu coração,
entristece minha alma
e perturba minha mente
por dentro eu grito e choro como
uma criança sendo torturada,
mas por fora sou uma simples pessoa
tentando desfarçar a realidade que vive,
e desfarço tão bem que poucos percebem.
EU QUERIA TRAZER-TE UNS VERSOS MUITO LINDOS

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.
Da minha decepção só nasce dureza
Do meu Amor Só nasce Tristeza
Não sei o que quero
Mas sei o que não posso ter
Chuva

Chuva que cai em tarde ensolarada
Noite que desce estrelada
Poesias que não rimam com nada
E carinho pela pessoa amada.

Leio o que eu não posso ver
Sinto o que eu não posso ter
Tenho fé onde eu não posso querer
Amo por apenas crer.

Tenho emoção exaltada
Ás vezes não penso em nada
Não consigo nem entender
Essa imensa estrada.

O mundo ainda irá existir
Enquanto dessa terra eu não partir
Pois meu coração pulsa e arde
Pela mulher que da minha vida faz parte.

E o badalar do sino
Me lembra de quando eu era menino
Que para ser feliz
Basta ter amor e carinho.
Amor e Poesia

Dedilhando as páginas de meu livro,
Cá estou lendo poesias bonitas.
Nenhuma delas é mais graciosa que teu sorriso,
Não há uma sequer.
Nenhuma delas me deixam tão bem como o teu beijo,
Tão completa como a tua presença,
Tão feliz como o teu cheiro.
Nenhuma delas amo mais que você.
Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...

Florbela Espanca
Caderno de poesias

Caderno de poesias
é um belo lugar.
Tantas coisas lindas
que eu gostaria de falar.
Eu falo em forma de versos
para todos poderem escutar.
Agora você já sabe
por que os poetas passam os dias
escrevendo em seus cadernos de poesias.
noites

chega à noite em minha mente
e junto com ela as lembranças
mas de algo que não aconteceu
lembranças de um ser frágil

porém capaz de me causar dor
uma dor que me mata aos poucos
dor capaz de me tirar lágrimas
lágrimas essas que o outro ser não derrama

lágrimas que caem em vão
que prometo não mais derramar
uma promessa que não cumpri
pois já se foi mais uma noite

noite essa que insiste em trazer dor
que por sua vez ainda insiste em me matar
mas o que é a morte se não um troféu...
para aqueles que tiveram a coragem de viver
e hoje preso em minha fortaleza de lágrimas...

Lágrimas depressivas

Lágrimas depressivas
É assim todo o dia
O sol clareia brando
A lua suaviza meu pranto
Medito sobre minha vida vazia

Lágrimas de suplício
Lágrimas geladas…
Lágrimas desperdiçadas…
Tentando aliviar meu martírio

E eu odeio tudo isso
Odeio sentir essa tortura
Ser seguida por essa amargura
Até já tentei suicídio

Minha lamúria
Meu terror que queima minha alma
Minha mortificação que não me deixa ter calma
Minha eterna fúria

Lágrimas…
Lágrimas de dor
Lágrimas sem amor
Mágoas…

Tentei me afogar
Nessa lamentação inútil
Nesse lamento fútil
Na bruma que disfarça o mar

Mas isso não me protegeu
Só me trouxe mais aflição
Só trouxe minha crucificação
Mas isso não me abateu

Pois, assim como eu
Nesse mundo profano
Sufocado nesse desejo insano
Muita gente morreu…

Nessa imortal depressão